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Gosto de andar sem pressa, ainda que a impaciência tenha pressa e corra comigo.

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Gosto de andar sem pressa, ainda que a impaciência tenha pressa e corra comigo.

Opostos, naturais.

arrefecer e aquecer: eis a questão

 

Quando Está Frio no Tempo do Frio


Quando está frio no tempo do frio,

para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

publicado às 00:06

Quem? Por quem?

 

Quem daqui partiu

rubra flor?

Quem te arremessou

pobre enjeitada?

Coração torturado?

De que espinhos?

Nunca os teus, de rosa

simples, encarnada.

Danaram tua excelência,

sem pudor.

De ténue perfume.

Doce suavidade.

 

 

Ao chão te aconchegaste,

onde serás espezinhada.

Por pés, e não punhos

das mãos que te cuidaram.

Ignorando tuas pétalas,

em súplica carmim.

Rosa desfalecida, rosa desprezada.

Rosa de amor; paixão; desilusão; despedida.

 

Não poucas vezes, ó bela rosa: foste enganada.

 

 

publicado às 01:50

Bola de magia, feita de sabão.

As bolas de sabão que esta criança

Se entretém a largar de uma palhinha

São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

Amigas dos olhos como as cousas,

São aquilo que são

Com uma precisão redondinha e aérea,

E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,

Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.

São como a brisa que passa e mal toca nas flores

E que só sabemos que passa

Porque qualquer cousa se aligeira em nós

E aceita tudo mais nitidamente.

 

Alberto Caeiro

publicado às 15:28

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